Sanjo: 90 anos, três vidas e um regresso a Portugal

Comprei um par de ténis porque precisava de ténis. Saí com noventa anos de história aos pés — e isso não estava no plano.
Isto é uma primeira impressão do Sanjo BSK 33 Low, comprado com o meu dinheiro na loja online da marca, em saldos, e calçado durante os primeiros dias. Não é um teste de durabilidade: para isso é preciso tempo, e o tempo ainda não passou. Mas antes de chegar ao sapato vale a pena perceber de onde vem a Sanjo — porque a história explica metade do objeto.
Nasceu numa fábrica de chapéus
A história começa em 1933, em São João da Madeira, e não numa fábrica de calçado. A Companhia Industrial de Chapelaria produzia chapéus — um artigo que estava a cair em desuso — e procurava alternativas. Encontrou-as na borracha. Daí nasceram as solas que viriam a definir a marca, e o nome veio da terra: Sanjo, de São João da Madeira.
Foi a primeira marca portuguesa de ténis. E, durante décadas, a única.
O quase-monopólio
O contexto explica muito. O Estado Novo fechou o país às importações, e o calçado desportivo estrangeiro simplesmente não chegava cá. A Sanjo cresceu nesse vazio até se tornar praticamente um uniforme nacional: lona, sola de borracha vulcanizada, e um par em quase todos os armários portugueses entre os anos 40 e 70.
Há uma história que se conta e que resume bem o peso da marca: houve transferências de jogadores de futebol feitas em troca de pares de sanjos. Equipavam clubes, equipavam o Exército, e foi sobretudo no futebol de salão que se tornaram indispensáveis — a sola agarrava ao pavilhão, e isso, na altura, não era garantido.
A queda
Com o 25 de Abril caíram as barreiras à importação. As marcas internacionais entraram, e a Sanjo não teve resposta. Tentou mudar o design, tentou sair do desporto, tentou tudo — e não conseguiu.
A Companhia Industrial de Chapelaria fechou em 1996. A marca foi à falência e, no processo, perdeu-se o molde original dos ténis. Foi comprada em hasta pública no ano seguinte, e daí até 2018 a produção mudou-se para a China. Houve ainda uma tentativa de relançamento em 2010 que não pegou.

A terceira vida
Em janeiro de 2019, a bracarense M2Bewear — de José do Egipto e Hélder Pinto — comprou a marca. Em setembro do mesmo ano a Sanjo voltou às lojas, com produção outra vez em Portugal, na fábrica Aboutoday, em Felgueiras. A coleção de arranque juntou os clássicos K100 e K200 a modelos novos.
Em 2023, nos 90 anos, chegou a linha BSK 33. E em 2025 entrou capital novo: a holding do empresário Carlos Palhares comprou 51% da empresa dona da marca.
A sede é hoje em Braga e a produção em Felgueiras. O made in Portugal mantém-se, mas vale a pena dizer sem rodeios: a marca já não pertence à terra que lhe deu o nome.

O BSK 33 e o legado do basquetebol
A linha BSK 33 nasceu de uma pesquisa nos arquivos da marca, feita por Vítor Costa, diretor criativo da Sanjo. Encontrou lá fotografias da equipa de basquetebol da Associação Desportiva Sanjoanense — o clube local, historicamente ligado à Sanjo — e desenhou a partir daí. Segundo contou, as fotos lembraram-lhe os Chicago Bulls.
Daí vem o resto: o «33» é o ano de fundação, e a caixa é um campo de basquetebol desenhado pelo mesmo designer.
O detalhe de que mais gosto são os calcanhares. Um diz «19», o outro diz «33». Separados não significam nada. Lado a lado, formam 1933. É a melhor ideia do sapato inteiro e é completamente invisível numa fotografia de comércio eletrónico.
A compra e a entrega
Cheguei aqui por acaso. Vi que a loja online estava em saldos, fui espreitar, e apaixonei-me por um modelo que nem sabia que existia. Conhecia — e gosto — do design clássico da Sanjo, mas não era o que procurava.
O site navega-se bem, os portes são grátis acima dos 30 € e a entrega chegou em menos de 48 horas, dentro do prazo anunciado. Um pormenor que merece nota: a opção de compensar a pegada de carbono da encomenda vem desmarcada por omissão. É escolha do cliente, e não o contrário — o que já não é dado adquirido em muitas lojas.
A embalagem está ao nível do resto. Caixa exterior em cartão kraft com o losango da marca, caixa verde por dentro com o campo de basquetebol impresso, papel de seda, sem plástico à vista. É bem feita e é bonita — daquelas que não apetece deitar fora.

Primeiras impressões
São confortáveis desde o primeiro dia. Não houve período de adaptação, não houve pontos de pressão. Calcei-os e pronto.
A construção transmite solidez: pele lisa no corpo, camurça no calcanhar, forro em pele, costuras limpas. A palmilha traz «1933» e «MADE IN PORTUGAL» — detalhe interno que ninguém vê, e que diz alguma coisa sobre o cuidado posto no produto.
A sola é a surpresa. Para uns ténis inspirados no basquetebol dos anos 80 e 90, o piso é bastante agressivo, com blocos profundos e recortes marcados. Lê-se mais outdoor do que pavilhão. É uma decisão de design assumida — e é o elemento mais divisivo do sapato.
Compro uns ténis brancos praticamente todos os anos. Com estes, a sensação é diferente: parecem feitos para durar bem mais do que uma época. É uma impressão, não um veredicto — só o uso o dirá — mas é a impressão que fica ao fim dos primeiros dias.

Veredicto provisório
Comprei porque precisava de ténis e fiquei pelo desenho. Saí com um objeto que tem história a sério por trás — não a história inventada de marketing, mas 90 anos de fábrica, falência, exílio na China e regresso.
Falta a parte que interessa: aguentar o uso. Volto a esta análise daqui a uns meses, e aí sim haverá um veredicto a sério.
